Imaruí (SC)
O que significa ser indígena na contemporaneidade? As respostas emergem das próprias comunidades: continuar existindo, viver o presente sem renunciar às raízes e manter viva uma cultura ancestral enquanto novos caminhos são construídos.
O dia 19 de abril amplia a reflexão sobre histórias e vivências e evidencia que a identidade não está circunscrita ao passado; ela se transforma, adapta-se e se fortalece a cada geração. Distante de estereótipos, ser indígena hoje também implica ocupar espaços, acessar direitos e reafirmar a própria cultura em múltiplos contextos.
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Mesmo diante das transformações, há elementos que permanecem como base identitária. “Ser indígena é ter a existência no corpo, no sangue e na alma. É carregar a nossa cultura e identidade como forma de expressão”, resume Daiana da Silva, moradora e professora da aldeia Tekoá Marangatu, em Imaruí.
Essa definição, contudo, transcende o âmbito individual, atravessando gerações, histórias e territórios. Ao compartilhar sua trajetória, marcada por experiências fora da aldeia, Daiana destaca a importância de que jovens indígenas acessem novos conhecimentos e explorem outros contextos, sem perder de vista o compromisso de retornar à comunidade e contribuir com o aprendizado adquirido.
Atualmente, como professora na aldeia onde nasceu, ela busca concretizar esse movimento, fortalecendo a língua e as expressões tradicionais. Manter vivos os cantos, as danças e a língua materna constitui uma das principais prioridades no cotidiano da comunidade.
“Há uma diferença significativa entre a escola indígena e a não indígena. Nossa forma de educação possui especificidades, e as crianças são influenciadas por pautas externas, como a tecnologia e outras inovações. Por isso, desenvolvemos atividades que aproximam os alunos de nossa cultura, buscando um equilíbrio”, pondera Daiana.
Tradições que permanecem
Mesmo em constante transformação, determinados elementos permanecem estruturantes na vida das aldeias. A preservação da língua e das práticas culturais não representa um retorno ao passado, mas um modo de avançar sem romper com a própria essência, constituindo um dos pilares da continuidade na aldeia Tekoá Marangatu.
Na comunidade, a preservação cultural se concretiza pelo fortalecimento da língua e das expressões tradicionais. “Utilizamos sempre a nossa língua materna, o que fortalece nossa vivência cotidiana”, relata Sérgio Duarte da Silva. Mais do que um meio de comunicação, trata-se de um instrumento de manutenção da identidade.
O acesso à educação dentro da aldeia decorre de uma demanda da própria comunidade, que buscou ferramentas para dialogar com a sociedade e assegurar direitos. “A educação tornou-se necessária para que pudéssemos nos comunicar e, sobretudo, lutar pelos nossos direitos”, explica o vice-cacique Fabiano Alves.
Educação como caminho
O acesso à educação amplia oportunidades e fortalece a autonomia das comunidades indígenas. Na Unesc, esse compromisso materializa-se por meio de políticas como a Bolsa Equidade Racial, que assegura acesso, permanência e formação de estudantes indígenas, permitindo o retorno às comunidades com novos conhecimentos, sem prejuízo da identidade.
“Trata-se de um momento de reconhecimento, reflexão e compromisso. Enquanto universidade comunitária, reafirmamos nossa responsabilidade com uma educação que respeita, acolhe e aprende com a diversidade dos povos originários”, afirma a reitora em exercício, Gisele Silveira Coelho Lopes.
Nesse contexto, ampliar o acesso ao ensino superior constitui apenas parte do percurso. O compromisso institucional estende-se à permanência, ao pertencimento e à construção de um ambiente acadêmico que dialogue com diferentes formas de conhecimento.
Neabi: equidade e inclusão
A promoção da equidade racial e de gênero também se fortalece por meio da atuação do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), que articula ações voltadas ao enfrentamento das desigualdades e à construção de um ambiente acadêmico inclusivo.
Segundo a coordenadora Normélia Ondina Lalau de Farias, o Programa de Equidade Racial representa um avanço ao garantir acesso e permanência no ensino superior. “Trata-se de uma reparação histórica, que ultrapassa a inclusão e busca assegurar condições reais de permanência”, afirma.
Primeiro mestrando indígena
A trajetória de Fabiano Alves, primeiro mestre indígena formado pela Unesc, simboliza um marco institucional e comunitário. Integrante da comunidade Guarani da aldeia Tekoá Marangatu, ele levou ao ambiente acadêmico o “Nhandereko”, modo de vida de seu povo, evidenciando a relação entre cultura, território, espiritualidade e natureza.
A conquista representa não apenas um avanço individual, mas também o fortalecimento do diálogo entre saberes tradicionais e conhecimento científico, reafirmando a legitimidade dos conhecimentos ancestrais.
Quebrando estereótipos
Entre tradição e transformação, novas ferramentas integram o cotidiano das aldeias, sem descaracterizar identidades. Tecnologias como celulares, drones e meios de pagamento digitais contribuem para dar visibilidade à cultura e fortalecer a organização comunitária.
“As pessoas acreditam que a tecnologia enfraquece a cultura, mas ocorre o oposto: ela também a fortalece”, afirma o cacique Daniel Benites.
Ainda assim, persistem percepções equivocadas. “Muitas vezes o preconceito decorre do desconhecimento”, observa Fabiano, ao relatar experiências em contextos urbanos, nos quais o uso de tecnologia é interpretado como perda de identidade. “Temos o direito de evoluir sem deixar de ser quem somos”, destaca.
Futuro e continuidade
O futuro é concebido como continuidade, com ampliação de direitos, acesso e fortalecimento cultural. “Vejo o futuro na evolução e na melhoria da qualidade de vida da comunidade”, afirma Fabiano.
Para as lideranças, a resistência permanece como elemento central. “Resistir é manter viva nossa cultura e nossa forma de viver”, reforça Sérgio.
Nesse percurso, a resistência manifesta-se também na capacidade de adaptação, sustentando a identidade e possibilitando a construção de novos caminhos sem ruptura com as raízes.
Abril Indígena na Unesc
Durante o mês de abril, a 8ª Semana Indígena, com o tema “Territórios de Saberes: Memória, Resistência e Direitos Indígenas”, promove uma programação diversificada, com rodas de conversa, oficinas, palestras, sessões de cinema e feira de arte e artesanato.
A iniciativa busca valorizar os povos indígenas e fomentar o diálogo entre o conhecimento acadêmico e os saberes tradicionais, ampliando espaços de escuta, troca e aprendizado coletivo.
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